quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Anestesia

Liquido quente e entorpecido
Que adormece as veias da vida
(amargo, ocre, doce e suave)

Escavei um nicho com as unhas
Ensanguentadas
Sentia terror…de te perder

Entregue ao sono permaneci
Num casulo fino carmim
(Assim deitada sobre ti)

Embalada ao som do violino
Anulei o poder do amor
A emoção do tacto
O aroma de um cacto

Existi em ti…esqueci-me de mim

(E ai vivi)
Imutável
Voz passiva
Adormecida

Anestesia

Mas, a noite devolveu-me o dia
A luz lambeu-me a sombra
A alegria devorou a agonia

O abismo elevou-se em mim…sem ti
No cume só existe um lugar…

Devorei-te
Dilui-te
Expeli-te

Anestesia!

Morro sem perceber o que me aconteceu…

Nesse dia,
Nessa hora,
Nesse raiar de segundo
Quando perdi o mundo…

Morro sem amanhecer mais um dia
Nesse regaço de pura fantasia
Nesse quarto,
Nessa cama,
Nessa trama
Onde perdi a chama…

Morro e não ressuscito
Morro e dou o dito por não dito

Morro e renasço
Mas não me acho…
Não me reencontro

Firo-me nas sílabas pontiagudas
De mais uma palavra
De mais uma recordação
Nesse junco de páginas brancas,
Nesse mar de elevadas chamas
Onde perdi o coração…

Somente palavras

O mistério envolve tuas palavras
São agulhas quem sabe vorazes
Capazes de ferir a mais dura carapaça

Mas elas não se calam
Ferem-te o peito
Deixam-te sem jeito… de retorno
E gritas
E esperneias
E rasgas a garganta
E as lágrimas abatem-se
Em dilúvio pelo teu corpo…ferido

E não sabes porquê
Mas, as palavras revoltam-se…sobre ti…e sobre mim

São pequenas criaturas
Que corroem a memória
Doem nas entranhas
Mas, apresentam-se estranhas

Assim…
Desenvoltas…
Soltas…
Descaradas…
Impunes…

Sem formação de português
Sem ar cortês
Sem permissão
Sem pedir perdão

Sim, apresento-te a teimosa mente
Que te queria para sempre
Sobre uma bandeja
Assim…demente

Finalmente

Num dia acabado de criar
A voz lançou-se no ar
E versejou até se calar

Nesse dia onde as tempestades
Prenunciam o teu nome
E os ventos terminam a viagem
Enchi o peito e soprei a eito

Os versos finalmente abandonaram
Minha mente
E gritaram por fim:
Lembra-te de mim!

Mas nem quero acreditar
Que foste beijar o mar
E nem me chamaste para te ver passar!

O infinito engoliu-te vorazmente
E assim
Numa nesga de segundo
Perdi o Mundo!

Tédio

Leio a revista
Partilho a imagem
Desfocada
Da tua ausência
Anunciada

Reparo e cheiro o aroma do tédio
Na página dos anúncios
Baratos
Desprovidos de actos
De riscos de contratos

Deparo com teu rosto
Subitamente
Desproporcional
Cansado
Faminto de desejo
Por mais um beijo
Que não pode comprar

Rasgo a revista
A meio do obituário
E conto um conto de encantar
Daqueles que me fazem chorar

E depois, depois do fim
Descanso numa cama
Repleta de almofadas
Vazia de ti

Volteio o lençol
E fico presa assim, como a sereia
Que permanece suspensa
No anzol

Rasuro o ar que respiro

Os versos volteiam em catadupa
Imemoráveis
Escrevo e reescrevo o poema
Sobre ti
As letras são apanhadas desprevenidas
Desprovidas de sentido algum
Insonoras
O poema permanece pesado
No papel amarfanhado
O vazio preenche minha mente
Ausente, descrente
O cálice envenenado é servido
Derrama
Nos lábios ressequidos pela escuridão
A melancolia
A fome de mais um dia
O decepar de mais uma noite
E chove torrencialmente
Pela face adormecida
Mais uma ida
Mais um ensejo
Mais um crepitar de beijo
E a madrugada acontece
Obscura de sonhos
Esquecida de uma vida
Cansada de mendigar desejos
E adormece
E nada acontece
Rasuro o que escrevi

É complicado não te pensar

Não me perturbar pensando-te
Sim é assim que a vida acontece
Um dia estás bem
No outro tudo esmorece
Ah! Pensamento em chaga ensanguentada
Vida em jogo de xadrez pautada

Sim amorfa mente transparecendo palavras
É complicado não te pensar
Não te supor a meu lado
Não suportar a ausência do teu quadro
Não compor contigo nosso Fado

Sim é complicado não te sentir
Não prosseguir o planeado
Sim contigo…meu amado!

Choves noite e dia

Pelo meu rosto afora
Sem permissão, sem perdão, sem pudor
Choves e não removes a agonia
Que um dia senti quando te soube partir
Choves sem vergonha por mim acima
E é neste clima de impura tempestade
Que te sinto vazar
Qual riacho que grita: Devolve-me a vida!

Perdi

Sim! Perdi o medo
de te pertencer para sempre
Já não faz sentido
Sentir
A
Espera
De
Teu
Coração
Que não vai nunca chegar

Sim! Perdi e compreendi
Que o nada é efémero
Que a esmeralda não é uma pedra preciosa
Mas sim um nome perfeito
Descobri que as estrelas não estrelam o céu
E que o meu coração anda de mão em mão
Sim! Perdi a matriz de minha vida
E o baú dos sonhos e a vontade de me chorar
Sim! Perdi a certeza de retornar ao mar
Só para te ver passar!

Do nada escrevo palavras

Desarrumadas
Entristecidas
Verde púrpura

Do nada respiro o teu ar
Rarefeito
Pesaroso
Cama desfeita

Do nada retiro o dia
Que a noite consome
Sem pedir permissão
Ao meu coração

Do nada ouço tua voz
Que num esgar atroz
Esmurra minha pele
E me deixa…prostrada
Na solidão deste vão de escada

domingo, 11 de abril de 2010

Em nome da poesia!

Vergo a monotonia
Desperto os sentidos
Rasgados
Arados em vida crua
Sulcados em arestas
Finas e pontiagudas

Em teu nome
Profiro palavras avassaladoras
Sentenças de dor
E finco a expectativa
Na perplexidade
De tuas odes de amor

Em ti me ajoelho
Verto a razão de meu ser
Confesso o inconfessável
Da recordação
À amplitude do saber…


Ah! Poesia estreito é teu ventre
Para conter decrépita agonia
De flagelado corpo
A meio mutilado

Açoitado
Profanado
Ajoelhado

Em teu nome oro uma
Ave-Maria

Grito libertador

O uivo clama na noite escura
Ensurdecedor
Apavorado
Sustentado pelo medo da solidão

Incitado pela fúria
Que lhe estrangula o coração


Ela inerte lívida de medo
Petrificada pela chuva
Que lhe escorre pelos genitais

Permanece junto à casa arruinada

Ela sustenta o rosto rubro de raiva
Sulcado pela lama
Ordinariamente vermelha

Sustem a paz podre
O grito purificador
Faustoso
Que lhe matou a dor fétida
E lhe devolveu a vida merecida

Fragmentada mas, estranhamente verdadeira

O Inferno dos Poetas

Esse inferno onde rasgo a minha pele
E a empoo de sal


Inferneira sem fundamento real
Crepitante
Arrepiante
Preme de solidão

Ah! Inferno onde me benzo
Onde pertenço
Onde me dissolvo
Na lama incandescente
Derramada de meu coração

Onde se cospem os primitivos sentidos
Onde se corrompem os esgares ilusórios


Ah! Inferno poético
Exausto de musas
Esgotado de estrofes
Diabolicamente amorfo

Onde morro e sobrevivo
Num limbo apático
Esperando por ti

Encontrei-te…

No recuado tempo
Onde o infinito não tem reverso
Onde a chama ecoa num verso

Encontrei-te…

Naquela noite quente
Repleta de gente
Que lançava poemas
Como quem lança
O coração ao vento

Sim encontrei-te…
Perdido no meio de palavras
De segredos
De sentimentos doloridos
De corações corrompidos

Sim…és tu
O pretendido
O escolhido
O meu querido

Mas como poderei amar-te…
Abraçar-te num absoluto beijo…
Que desejo

Perdoa-me… encontro-me a ensandecer
Por ti

Escrever por fim

Escrever sem prenunciar teu nome
Incógnito
Anónimo
Paralelo de mim

Escrevo o último acto
Lanço o penúltimo artefacto
Folha de ti

Retiro do palco
As personagens
Desfeitas
Imperfeitas
De cor carmim

Desço as cortinas
Liberto as amarras
Parti
Por fim

Querer

Queria acreditar que o que escreves
É dedicado a mim

Versos, poemas, pertenças, sentenças
Impressos
Cravados
Cunhados
Em súplica pele

Feita de favos mel

Queria acreditar e jurar que o que declamas
É dito por ti
A pensar em mim

A voz
O olhar
O sorriso

Queria achá-los meus
Perfeitos poemas ateus
Escritos a sangue e fel

Feitos de favos mel

Sombreados em papel

Espero

Sento-me
No meio da ponte
Na sombra
Do lugar
Nosso

Cravo a pena
No coração
Sangro

Amparo
Meu corpo
Debilitado
Escorregadio
Cambaleio
Abrando o ritmo

Descaminho

Procuro a razão
Para continuar
A pensar

Espero

No silêncio
Provocante de ti

“Perdidamente”

A lágrima goteja… no colo
Transvia-se

Descobre o fruto proibido
Alarva-se no muco odorífico
A margaridas dos prados bicolores

O sonho primordial…cheiro a incenso
Erótico

O espectáculo da vida
O reflorescer da paixão
A ânsia em cada coração

A mão serena suaviza…a pele
Perfumada

As mãos entrelaçam-se
Tremulas à superfície
Os passos cessam

Os lábios lânguidos beijam…a paixão
Esbrasiada

A imaginação une o sentir
Elevado ao limite
Das nuvens celestes
A cama acolhedora abre os braços…possantes
Extasiados

Os poros vibram
Imperceptíveis
Puramente sintonizados

Os corpos procuram-se…cegos
Os olhos possuem-se
O caos não os separa
O vácuo suga-os
Implodem em cascata sôfrega de água

A lágrima goteja
O sonho desperto
O leito humedecido
O corpo …solitário…esvaído

Agrilhoado

Em mansarda
Alicerçada em areias movediças
Paredes postiças
Janelas invioladas

Sentes meu coração…

Pistola atada à nuca
Corda a ornamentar os pulsos
Cama coberta de arame falhado

Sentes meu coração pulsar…

O piano canta notas falsas
Os tapetes não voam
Em histórias encantadas

Fantasiadas

Sentes meu coração pulsar em tua mão…

Os sonhos são castrados
As mãos unidas
Em promessas fingidas

Descaídas

Sentes meu coração pulsar em tua mão?…Agrilhoado

O crepúsculo do poeta




É ao anoitecer
Ao entardecer
Ao amanhecer

Ele existe e persiste
Em acontecer


É na razão do ser
Na imensidão de tudo perder
Que ele se retrata
Que ele se prostra
Que humedece as palavras
E as deixa crescer
Em si
À sua imagem
A fome de seguir viagem

A peregrinação imaculada
A visão da alma
O empalidecimento
Do dia
O vislumbre da noite
O signo do poema

É neste recanto
Do pensamento
Que a ilusão faz o acontecer
Permitindo
Que ele se descreva
Se revele
Que aconteça
Que seja simplesmente