domingo, 11 de abril de 2010

Em nome da poesia!

Vergo a monotonia
Desperto os sentidos
Rasgados
Arados em vida crua
Sulcados em arestas
Finas e pontiagudas

Em teu nome
Profiro palavras avassaladoras
Sentenças de dor
E finco a expectativa
Na perplexidade
De tuas odes de amor

Em ti me ajoelho
Verto a razão de meu ser
Confesso o inconfessável
Da recordação
À amplitude do saber…


Ah! Poesia estreito é teu ventre
Para conter decrépita agonia
De flagelado corpo
A meio mutilado

Açoitado
Profanado
Ajoelhado

Em teu nome oro uma
Ave-Maria

Grito libertador

O uivo clama na noite escura
Ensurdecedor
Apavorado
Sustentado pelo medo da solidão

Incitado pela fúria
Que lhe estrangula o coração


Ela inerte lívida de medo
Petrificada pela chuva
Que lhe escorre pelos genitais

Permanece junto à casa arruinada

Ela sustenta o rosto rubro de raiva
Sulcado pela lama
Ordinariamente vermelha

Sustem a paz podre
O grito purificador
Faustoso
Que lhe matou a dor fétida
E lhe devolveu a vida merecida

Fragmentada mas, estranhamente verdadeira

O Inferno dos Poetas

Esse inferno onde rasgo a minha pele
E a empoo de sal


Inferneira sem fundamento real
Crepitante
Arrepiante
Preme de solidão

Ah! Inferno onde me benzo
Onde pertenço
Onde me dissolvo
Na lama incandescente
Derramada de meu coração

Onde se cospem os primitivos sentidos
Onde se corrompem os esgares ilusórios


Ah! Inferno poético
Exausto de musas
Esgotado de estrofes
Diabolicamente amorfo

Onde morro e sobrevivo
Num limbo apático
Esperando por ti

Encontrei-te…

No recuado tempo
Onde o infinito não tem reverso
Onde a chama ecoa num verso

Encontrei-te…

Naquela noite quente
Repleta de gente
Que lançava poemas
Como quem lança
O coração ao vento

Sim encontrei-te…
Perdido no meio de palavras
De segredos
De sentimentos doloridos
De corações corrompidos

Sim…és tu
O pretendido
O escolhido
O meu querido

Mas como poderei amar-te…
Abraçar-te num absoluto beijo…
Que desejo

Perdoa-me… encontro-me a ensandecer
Por ti

Escrever por fim

Escrever sem prenunciar teu nome
Incógnito
Anónimo
Paralelo de mim

Escrevo o último acto
Lanço o penúltimo artefacto
Folha de ti

Retiro do palco
As personagens
Desfeitas
Imperfeitas
De cor carmim

Desço as cortinas
Liberto as amarras
Parti
Por fim

Querer

Queria acreditar que o que escreves
É dedicado a mim

Versos, poemas, pertenças, sentenças
Impressos
Cravados
Cunhados
Em súplica pele

Feita de favos mel

Queria acreditar e jurar que o que declamas
É dito por ti
A pensar em mim

A voz
O olhar
O sorriso

Queria achá-los meus
Perfeitos poemas ateus
Escritos a sangue e fel

Feitos de favos mel

Sombreados em papel

Espero

Sento-me
No meio da ponte
Na sombra
Do lugar
Nosso

Cravo a pena
No coração
Sangro

Amparo
Meu corpo
Debilitado
Escorregadio
Cambaleio
Abrando o ritmo

Descaminho

Procuro a razão
Para continuar
A pensar

Espero

No silêncio
Provocante de ti

“Perdidamente”

A lágrima goteja… no colo
Transvia-se

Descobre o fruto proibido
Alarva-se no muco odorífico
A margaridas dos prados bicolores

O sonho primordial…cheiro a incenso
Erótico

O espectáculo da vida
O reflorescer da paixão
A ânsia em cada coração

A mão serena suaviza…a pele
Perfumada

As mãos entrelaçam-se
Tremulas à superfície
Os passos cessam

Os lábios lânguidos beijam…a paixão
Esbrasiada

A imaginação une o sentir
Elevado ao limite
Das nuvens celestes
A cama acolhedora abre os braços…possantes
Extasiados

Os poros vibram
Imperceptíveis
Puramente sintonizados

Os corpos procuram-se…cegos
Os olhos possuem-se
O caos não os separa
O vácuo suga-os
Implodem em cascata sôfrega de água

A lágrima goteja
O sonho desperto
O leito humedecido
O corpo …solitário…esvaído

Agrilhoado

Em mansarda
Alicerçada em areias movediças
Paredes postiças
Janelas invioladas

Sentes meu coração…

Pistola atada à nuca
Corda a ornamentar os pulsos
Cama coberta de arame falhado

Sentes meu coração pulsar…

O piano canta notas falsas
Os tapetes não voam
Em histórias encantadas

Fantasiadas

Sentes meu coração pulsar em tua mão…

Os sonhos são castrados
As mãos unidas
Em promessas fingidas

Descaídas

Sentes meu coração pulsar em tua mão?…Agrilhoado

O crepúsculo do poeta




É ao anoitecer
Ao entardecer
Ao amanhecer

Ele existe e persiste
Em acontecer


É na razão do ser
Na imensidão de tudo perder
Que ele se retrata
Que ele se prostra
Que humedece as palavras
E as deixa crescer
Em si
À sua imagem
A fome de seguir viagem

A peregrinação imaculada
A visão da alma
O empalidecimento
Do dia
O vislumbre da noite
O signo do poema

É neste recanto
Do pensamento
Que a ilusão faz o acontecer
Permitindo
Que ele se descreva
Se revele
Que aconteça
Que seja simplesmente